Radio Havana Cuba-05 de dezembro 2000 Via NY Transfer News * All the News That Doesn't Fit Radio Havana Cuba - Resumo de noticias - 05 de dezembro 2000 . *MERCOSUL: NEGOCIAÇÕES DE ACORDO COM CUBA SERÃO EM MARÇO *ESTUDANTIS E JUVENIS PANAMENHAS DENUNCIAM PLANOS DE POSADA CARRILES *BRASIL PRODUZIRÁ INTERFERON COM TECNOLOGIA CUBANA *SEGMENTOS DA POPULAÇÃO GUATEMALTECA SE SOLIDARIZAM COM MÉDICOS CUBANOS *FESTIVAL INTERNACIONAL DO CINEMA NOVO LATINO-AMERICANO ABRE HOJE *PEACE BOAT ATRACA EM HAVANA *ENTREVISTA DE RHC: Luiz Inácio Lula da Silva . *MERCOSUL: NEGOCIAÇÕES DE ACORDO COM CUBA SERÃO EM MARÇO Cuba negociará em março de 2001 com o Mercosul um acordo de preferências tarifárias para uma lista de produtos, anunciou o ministro das Relações Exteriores cubano, Felipe Pérez Roque, em coletiva de imprensa, em Brasília. O chanceler sublinhou o empenho da Ilha em criar as condições para que Cuba se integre ao movimento econômico da América Latina. "Cuba, paralelamente, se aproxima da Comunidade Andina de Nações com o mesmo objetivo de unificar os interesses latino-americanos. Além disso, tem acordos com 15 países do Caribe no marco de Caricom," pontuou. O acordo com o Mercosul tomará por base o sistema 4 + 1 e não a sociedade plena, explicou o chanceler cubano, em Brasília. *ESTUDANTIS E JUVENIS PANAMENHAS DENUNCIAM PLANOS DE POSADA CARRILES Organizações estudantis e juvenis do Panamá denunciaram perante o Defensor do Povo, Ítalo Antinori Bolaños, os planos terroristas do comando anticubano chefiado por Luis Posada Carriles para assassinar o Presidente Fidel Castro durante a recém-finalizada Cimeira Ibero-Americana. Os demandantes afirmaram que se deve impedir de qualquer maneira que Posada Carriles e seus cúmplices continuem vivendo impunes e adiantaram que o caso será levado, também, à Comissão Inter-Americana de Direitos Humanos, com sede em Washington, e a outras organizações internacionais. O congressista salvadorenho Shafick Handal denunciou que a direita no seu país tenta encobrir seus vínculos com os terroristas Luis Posada Carriles e seus cúmplices com falsas acusações em torno da presença de supostos espiões cubanos no território salvadorenho. *BRASIL PRODUZIRÁ INTERFERON COM TECNOLOGIA CUBANA Os chanceleres de Cuba, Felipe Pérez Roque, e do Brasil, Luis Felipe Lampreia, assinaram acordo para a produção do medicamento Interferon, que estimula o sistema imunológico dos seres humanos e se utiliza no tratamento de certas doenças de origem viral e bacteriana. O Centro de Engenharia Genética e Biotecnologia de Cuba será a encarregada de transferir a tecnologia para produzir o Interferon em parceria com a Fundação Oswaldo Cruz, no Brasil. Pérez Roque, de visita oficial no Brasil, informou que as duas chancelarias sustentarão encontro em janeiro, na capital cubana, dando continuidade a assuntos de interesse mútuo e à troca de impressões sobre temas de interesse internacional. Para o chanceler cubano, as relações entre seu país e o Brasil são excelentes e destacou que as perspectivas são muito boas no comércio e nos investimentos de empresas brasileiras na Ilha. O comércio bilateral, neste ano, montou em cem milhões de dólares, 30% a mais do que em 1999. *SEGMENTOS DA POPULAÇÃO GUATEMALTECA SE SOLIDARIZAM COM MÉDICOS CUBANOS Organizações políticas e defensoras dos direitos humanos da Guatemala se solidarizaram com os médicos cubanos que prestam serviços humanitários nesse país e repudiaram as ameaças de morte contra eles, oriundas de um suposto grupo paramilitar. Ao discursar pelo Dia da Medicina Latino-Americana, o presidente Fidel Castro garantiu que nenhum médico cubano se moverá de seu posto. O governo guatemalteco tem alta consideração pelo importante trabalho humanitário feito pelos médicos cubanos, que atenderam mais de dois milhões de pacientes (712,308 crianças), desde novembro de 1998. *FESTIVAL INTERNACIONAL DO CINEMA NOVO LATINO-AMERICANO ABRE HOJE Com a inuguração oficial, hoje, do 22º Festival Internacional do Cinema Novo Latino-Americano de Havana começa o mais importante e esperado encontro anual da sétima arte em Cuba. O filme argentino "Nueces para el amor" do conhecido realizador Alberto Lequi abre este festival, que viabiliza, como de costume, amistoso intercâmbio entre diretores e atores de diferentes partes do mundo. Mais de 300 materiais nas categorias de longametragens de ficção, documentários, desenhos animados e vídeo, assim como roteiros e posters, competirão nesta edição. Igualmente, se poderá apreciar as últimas obras do cinema espanhol, francês, alemão, italiano, canadense e de realizadores independentes norte-americanos. O programa inclui amostras das escolas de cinema e universidades do Chile, Argentina e Espanha, seminários como o universo audiovisual da criança latino-americana, homenagem ao realizador peruano Franciso Lombardi, que concorre com a fita "Tinta Roja," e retrospectivas dos cineastas Leonardo Favio, da Argentina, Robert Bresson, da França, e do ator italiano, Vitório Gassman. *PEACE BOAT ATRACA EM HAVANA O conhecido Peace Boat, ou Cruzeiro da Paz, atracou pela 6ª vez no porto de Havana, desta feita com 550 passageiros a bordo, a maioria jovens japoneses, que entregarão donativos de medicamentos e materiais escolares ao povo cubano. "O objetivo da viagem é continuar conhecendo o povo cubano, que tem uma grande riqueza espiritual apesar das dificuldades geradas pelo bloqueio dos Estados Unidos," afirmou o diretor do grupo, Dairi Nakahara. Nesta ocasião, vieram no cruzeiro cerca de vinte jovens procedentes da Espanha, Brasil, Austrália, Estados Unidos, Canadá e França. *ENTREVISTA DE RHC: Luiz Inácio Lula da Silva Entrevista concedida à nossa emissora por Luiz Inácio Lula da Silva, presidente de honra do PT-Partido dos Trabalhadores, que esteve em Cuba no vôo de mais de 200 brasileiros ligados à essa organização política. (Havana, 1º/dezembro/2000). RHC: Esta é a primeira vez que uma delegação tão numerosa e heterogênea do PT vem a Cuba. Estiveram na Faculdade Latino-americana de Ciências Médicas, encontro com Fidel... como você vê, globalmente, o resultado dessa visita? Lula: "Primeiro, a viagem tinha como objetivo proporcionar às pessoas do PT, que a vida inteira sonharam com fazer uma viagem a Cuba, vir a Cuba. E as pessoas vieram com interesses diferentes: alguns vieram para conhecer Cuba mesmo, outros vieram para ter acesso à política de saúde, outros à política de educação, alguns vieram para discutir com os setores da economia os investimentos empresariais que estão acontecendo em Cuba, o que significa o turismo, o que significa hoje a produção de cana-de-açúcar, e uma boa parte veio porque tinha uma vontade imensa de ter um contato com o presidente Fidel Castro. Eu penso que a viagem foi consagrada de êxito. Primeiro, porque visitamos tudo aquilo que queríamos, inclusive em nível de esportes. Tive o prazer de encontrar com a Mireya Luis, que era uma espécie de deusa do vôlei, e que derrotou o Brasil três vezes... E nós estamos convencidos que o esporte é uma possibilidade que temos para diminuir a delinqüência juvenil nos países pobres da América Latina. Também, pelos contatos políticos: tive a oportunidade de ter três contatos políticos com Fidel Castro, com Carlos Lage, com Felipe, o ministro das Relações Exteriores. Penso que a delegação volta exultante para o Brasil, que a viagem foi consagrada de total êxito, e acho que cada um de nós volta para o Brasil esperançoso de que, deste pequeno país do Caribe, a gente leva uma dosagem muito forte de auto-estima, de dignidade e de ética, que eu penso que falta para os políticos da América Latina." RHC: Lula, tem muita gente que confunde a solidariedade a Cuba com adesão ao modelo cubano. Qual é a sua opinião como conhecedor de Cuba há muitos anos? Lula: "Eu tive a oportunidade, numa recepção que o presidente Fidel Castro nos ofereceu no Palácio, de dizer no microfone que o PT não vem a Cuba buscar um modelo para o Brasil, e muito menos o PT vai aos EUA ou à França buscar um modelo para o Brasil. Nós entendemos que o modelo que vai dar certo para o Brasil é o modelo que surja a partir da nossa cultura, a partir da nossa experiência de luta, a partir da nossa vontade política... ou seja, não é possível importar ou exportar qualquer modelo. Cada povo só vai consolidar o seu modelo a partir de suas próprias raizes, se não for assim será um modelo falido. O neoliberalismo é isso: a América Latina tenta implantar a mesma política de mercado dos países ricos, e por isso os países da América Latina estão todos empobrecidos e os seus governantes desmoralizados. Eu disse ao presidente Fidel Castro que o que nós gostariamos de levar como experiência para o Brasil eram os investimentos que são feitos na educação, na saúde e no esporte, a dosagem de ética e dignidade muito grande do povo cubano. Isso sim nos interessa, porque acho que não é possível fazer política sem ética." RHC: Quanto a isso, você acha que no Brasil, sem mudar a estrutura do sistema, dá para aproveitar alguma experiência cubana, principalmente nessa área social? Lula: "Eu acho que é plenamente possível você ter um sucesso extraordinário no Brasil adotando a política do Médico de Família; é plenamente possível você ter êxito no Brasil se aplicar corretamente uma grande política de educação; e muito mais correto ainda, e daria certo, se você conseguisse fazer com que o esporte fosse um direito de todos, e não um privilégio de poucos. Acho que, nesse aspecto, Cuba é um exemplo a ser seguido por todos os países do mundo. Eu até dizia para a imprensa brasileira, e para algumas pessoas que discordam de Cuba, que seria importante que eles se dispusessem a fazer uma viagem do México até a Patagônia, para perceberem, visitando a população mais rica, visitando a população mais pobre, visitando a classe política, se existe no continente algum país que tenha tanta dedicação com a área social como tem Cuba. Por exemplo: a imprensa dos países da América do Sul costuma fazer críticas ao fato de terem cubanos querendo ir para Miami; e poucas vezes a imprensa retrata que, em apenas um ano, no muro que separa o México dos EUA morreram 475 pessoas, das quais 180 afogadas num rio, outras 145 morreram mordidas por escorpiões e cobras, e outras morreram de fome, inclusive crianças. Então, essas coisas não são divulgadas porque não interessa... o que interessa é tentar desgastar o modelo cubano. Possívelmente tenha morrido mais gente no México tentando atravessar para os EUA, do que morreu no Muro de Berlim durante 40 anos." RHC: A ONU tornou a condenar, pela nona ocasião, o bloqueio a Cuba. Agora vai ter uma mudança de governo nos EUA. Você acha que o novo governo norte-americano teria vontade ou coragem de mudar essa política obsoleta? Lula: "Depois da vergonhosa eleição norte-americana, qualquer que seja o presidente eleito - e parece que o Bush foi eleito - eu acho que é eleito numa condição muito desmoralizante. Acho que terá pouca moral para fazer uma investida para terminar o bloqueio a Cuba. Os governos norte-americanos tem medo da gente da Flórida, tem medo da máfia cubana na Flórida, e penso que nenhum deles vai fazer nenhum gesto para diminuir o bloqueio. Acredito que a ONU precisaria ser mais contundente. Da mesma forma que ela teve coragem de autorizar a invasão ao Iraque, poderia determinar o fim do bloqueio como resolução da ONU, e começar a exigir que os EUA venham a abolir toda e qualquer legislação que implica em bloqueio a Cuba. Acho que os cubanos, nesses 40 anos, já conquistaram o direito de viver sua própria vida sem ingerência norte-americana." RHC: Acaba de ser descoberto um plano de atentado contra Fidel Castro no Panamá. Por quê você acha que hoje, depois de 40 anos, ainda há gente tentando eliminar o Fidel e continuar fazendo ações terroristas contra Cuba? Lula: "Olha, se aqui em Cuba predominasse a corrupção, se em Cuba predominasse a máfia, certamente não haveria nenhum interesse em matar Fidel Castro. Na minha opinião, a única explicação para tentarem querer matar um homem da dignidade de Fidel Castro é, efetivamente, o exemplo que ele representa para milhões de pessoas no mundo... o exemplo de honradez, o exemplo de dignidade, de compromisso social, e o exemplo de amor a seu país. É por isso que os norte-americanos ficam tão nervosos e tão inquietos. Eu nunca vi os norte-americanos se incomodarem porque um rei da Arábia Saudita fique no poder 80 anos, que um da Jordânia fique 60 anos, eu nunca vi... O incômodo deles é apenas Cuba, exatamente pelo que Cuba representa a nível de dignidade." RHC: Hoje há cúpula de todos os tipos: Ibero-americana, do Mercosul, de Mudanças Climáticas... Você acha que essas reuniões servem para alguma coisa? Lula: "Termina servindo, porque política é extamente isso, política é muita conversa, política é muito encontro, política é muita divergência para que a gente possa chegar à convergência. Acho que essas reuniões permitem, pelo menos, que cada governante possa, em foros internacionais, explicitar aquilo que é sua visão de governo, aquilo que é sua visão de continente, a estratégia do seu país para enfrentar esse mundo globalizado. Por menos produtiva que for uma reunião dessas, eu penso que do ponto de vista político vale a pena, mesmo quando você vai numa reunião para receber provocações como as que o Fidel recebeu do presidente de El Salvador." RHC: Tem movimento dos sem-terra, movimento dos sem-teto no Brasil... você acha que, com a globalização neoliberal, chegaremos a ter um movimento dos sem-soberania? Lula: "Eu acho que já temos isso... já temos isso porque os nossos países perderam muito do ponto de vista da soberania. Hoje, quem determina as orientações econômicas para os países do Terceiro Mundo não é mais a vontade do governo ou as necessidades do povo, é a vontade do FMI, a orientação econômica vista apenas pelo lado do mercado, sem levar em conta que nós temos dois terços da população dos países da América Latina fora do mercado. Por isso, estou convencido que cada país só vai se desenvolver com mais força se estabelecer seu modelo de desenvolvimento, seu modelo de política industrial, de política agrícola, de relação do comércio exterior, a partir das necessidades do seu país, e não a partir dos interesses e das orientações do FMI." RHC: Daqui a dois anos haverá eleição presidencial no Brasil. Tem gente que fala que o PT está ficando cor-de-rosa. Qual é a sua visão, quando faltam ainda dois anos, quanto à possibilidade de alianças de forças progressistas? Lula: "O PT continua o mesmo. Óbviamente, não é possível você querer que, 20 anos depois, um adolescente que se tornou maduro faça o mesmo discurso de uma criança de dois anos de idade, o que nós tínhamos em 1982. O PT, hoje, é o partido políticamente mais preparado para enfrentar a crise econômica e a crise social. O PT tem propostas concretas para as mais diferentes áreas: economia, indústria ou agricultura do Brasil, e o PT está preparado para ganhar as eleições de 2002. É uma eleição difícil, é verdade... é preciso estabelecer uma política de alianças, é preciso saber quem serão os nossos parceiros nessas eleições de 2002. Uma coisa tem de ficar muito clara: o PT não abrirá mão de nenhum dos seus princípios para chegar ao poder. O PT é contra a política de privatização, tal como ela está sendo feita, o PT defende um modelo de desenvolvimento que leve em conta o fortalecimento da indústria nacional, da agricultura nacional, que leve em conta a necessidade de estabelecer uma nova ordem econômica mundial. Para isso, o PT defende que o Brasil tenha uma maior participação na Organização Mundial do Comércio. Não podemos continuar a ser coadjuvantes. Temos de ser artistas principais nessas discussões, a fazer valer a vontade do Terceiro Mundo. Para isso, é preciso que tenha governantes com compromissos nacionalistas." RHC: A última pergunta é pessoal. O Lula já foi líder sindical, candidato presidencial... como é que o Lula vê o Lula hoje, depois de tantos anos de luta? Lula: "Olha, eu me vejo hoje como uma pessoa mais preparada do que estava faz dez anos atrás. Estou mais consciente das nossas responsabilidades, estou mais consciente dos problemas que o Brasil vive e das soluções que o Brasil precisa, e estou convencido de que, hoje, o PT não depende apenas do Lula... o PT tem muita gente boa. O PT tem 60 deputados, 7 senadores, 3 governadores de estado, 187 prefeitos das cidades mais importantes do Brasil, e tem centenas de milhares de militantes, que têm consciência do papel que devemos jogar agora. Por isso, eu me considero mais maduro, mais calejado e melhor preparado para enfrentar as dificuldades que o Brasil precisa enfrentar para se tornar uma nação grande, livre e soberana." (c) 2000 Radio Havana Cuba, NY Transfer News. Todos os direitos reservados. ================================================================= NY Transfer News Collective * A Service of Blythe Systems Since 1985 - Information for the Rest of Us 339 Lafayette St., New York, NY 10012 http://www.blythe.org e-mail: nyt@blythe.org ================================================================= rhc-por-13152 2000-Dec-06 02:46:23